domingo, 17 de janeiro de 2016

É seguro beber suco verde (detox)?

Há algum tempo já vem ganhando força na mídia os famosos sucos “detox”. Muitas pessoas pensam que é uma bebida que vai “desintoxicar” seu organismo, fazer com que as “impurezas” advindas da comida não saudável ingerida vão ser eliminadas com auxílio dessa bebida. Pelo contrário, como já foi comentado em outro blog1, muitas plantas utilizadas para confecção desses sucos possuem toxinas, como é o caso do couve. E por que possuem toxinas? As plantas, ao longo de um processo evolutivo, foram desenvolvendo características que as tornassem impalatáveis. Mas para que isso? Muitos animais são herbívoros, ou seja, se alimentam de plantas. Dessa forma, elas precisam desenvolver características que impeçam esses animais de se alimentarem delas. Uma das formas é o desenvolvimento de toxinas. Por que você não come uma banana verde ou um tomate verde? Provavelmente porque o gosto é ruim? Esse gosto ruim é um sinal de alerta: “tenho gosto ruim, não me coma, sou cheia de toxinas.” Em verdade, alguns frutos são tóxicos assim quando “verdes”, pois suas sementes ainda não estão bem desenvolvidas. Dessa forma, é necessário um amadurecimento para que a semente esteja pronta para dispersar e germinar em algum local apropriado. Então quando o fruto amadurece torna-se livre das toxinas, sendo então palatável.
Mas e por que o suco detox é tão disseminado, ganhando muitos adeptos, sendo apoiado inclusive por profissionais da saúde? Provavelmente isso se deve ao desconhecimento. Já ouviram falar na frase “Só o conhecimento nos liberta”? Pois então, vamos tentar nos libertar do pseudoconhecimento, conhecimento falso, ou como queiram, que não é verdadeiro, e só está aí para iludir as pessoas e fazer com que as mesmas muitas vezes até gastem R$20,00 em um litro de suco detox pensando que irão eliminar as toxinas de seus corpos.
Temos que admitir uma coisa primeiramente: apesar do suco detox não desintoxicar, ele pode ser rico em nutrientes. Sim! Imagine um suco feito com limão, maçã, couve e gengibre. Vamos considerar o limão: possui baixa quantidade de calorias, é rico em fibras alimentares, possui substâncias consideradas antioxidantes (que sequestra radicais livres), vitamina A, B6, D, B12, C (essa em grande quantidade), além de ferro, cálcio e magnésio. Logo, em apenas um dos ingredientes do dito suco detox, podemos perceber que este pode ser muito benéfico para nossa saúde, pois é cheio de nutrientes.
No entanto, partir do princípio de que o suco faz bem em relação à quantidade de nutrientes que possui, para afirmar que sim, podemos comer muito no domingo (costela, linguicinha, maionese caseira, batata-frita, sorvete) pois na segunda-feira iremos beber nosso mágico suco detox e tudo se resolve, não é um tanto precipitado de mais? Não é fruto de falta de conhecimento? Sonho com o dia em que poderemos confiar em profissionais da saúde alimentar, como nutricionistas. Recentemente vi um caso de uma pessoa que estava fazendo uma dieta dita detox, recomendada por sua nutricionista, com o intuito de perder peso e ... desintoxicar. Aí perguntei quais seriam essas toxinas que ela estava tentando eliminar com a dieta. A resposta foi: “Ah, as toxinas são: falta de atividade física, carne vermelha, ...”. Pffffff! What? Falta de atividade física é uma toxina? Carne vermelha trata-se de um emaranhado de toxinas? Poxa, sem carne vermelha provavelmente não estaríamos aqui, com os cérebros tão bem desenvolvidos e com milhares de conexões sinápticas entre os milhares de neurônios existentes. Está certo, há muitas controvérsias sobre carnes brancas serem mais saudáveis do que carne vermelha, mas esse não é o foco desse texto.
Mas vamos aos estudos. Um resumo clínico publicado no periódico Endocrine Abstracts em 20122 relatou que um homem de 76 anos de idade foi ao hospital e verificaram que estava com pressão alta e hipocalemia, ou seja, falta de potássio no organismo. Ele comentou que havia bebido uma grande quantidade de suco verde, tanto que, com a admissão no hospital, após um tempo, os sintomas tinham desaparecido. Os autores levantaram a hipótese de que uma enzima estaria sendo inibida por uma planta utilizada no suco verde, licorice, nativa do sul da Europa, Índia e algumas partes do continente asiático. Essa enzima (11βHSD tipo 2) está ligada ao cortisol, onde o paciente estaria com um excesso desse hormônio, desenvolvendo assim, hipocalemia e hipertensão severas. E olha só, licorice, quando ingerida em excesso, pode mesmo causar pressão alta, baixa concentração de potássio, fraqueza, paralisia e ocasionalmente danos ao cérebro.3,4
Bem, não podemos levar em consideração apenas um estudo, não é mesmo? Além do mais, os sintomas por beber suco verde em excesso foi observado em apenas uma pessoa. Ceticismo pessoal, ceticismo! No entanto, como todos sabem, o que comemos/bebemos em excesso pode sim fazer mal. Portanto, por via das dúvidas, o melhor é não beber suco detox em demasia, pensando que quanto mais beber, mais desintoxicada(o) você vai ficar. Fique tranquilo(a), o seu fígado e seus rins, além de outros órgãos, já estão fazendo (ou espera-se que estejam) um ótimo trabalho desintoxicando seu organismo (sugiro a leitura dos links que encontram-se nas referências).
De acordo com Klein & Kiat (2014)5, apesar da indústria dos detox estar se beneficiando cada vez mais, há pouquíssimas evidências clínicas que suportam a adesão a dietas detox. Ainda comentam que um número expressivo de estudos indicam que dietas detox auxiliam o fígado a funcionar melhor, no entanto, são encontradas falhas nesses estudos, como por exemplo, o baixo número amostral utilizado. Como eu falei antes: Ceticismo pessoal! Como levar em consideração um estudo que utilizou poucas pessoas? É no mínimo precipitado chegar à conclusão sobre um determinado assunto baseando-se apenas em estudos com número amostral baixíssimo. E por que tem que haver um número amostral alto? Pois bem, se utilizarmos poucas pessoas, há o risco de falsos resultados, ou seja, corre-se o risco que que o resultado seja simplesmente aleatório, pois há pouca variabilidade genética da população amostrada. Variabilidade genética? Sempre é bom ter, em estudos que envolvam pessoas, uma gama de organismos, com as mais diferentes características, inclusive genéticas, onde as pessoas possam apresentar variação em relação às características expressadas por seus genes.
Analisem uma dieta, a dieta do limão detox: baseia-se em um programa de dez dias, onde TODAS as refeições são substituídas por um suco que contém limão, água purificada, pimenta e um tipo de “xarope” (tree syrup). Água marinha e um chá laxativo são permitidos. Promete: reduzir toxinas, perda de peso, pele e cabelos impecáveis e unhas fortes5. Agora me digam, vocês se arriscariam fazer uma dieta desse porte, por dez dias? Eu não. Apesar de, confesso, ter feito algumas dietas malucas já, ao longo da minha jornada em busca da perda de peso, já aprendi que o melhor caminho é por reeducação alimentar e atividade física, nada de loucuras que colocam em risco nossa saúde.
Um programa detox que foi clinicamente avaliado, foi o realizado em bombeiros que trabalharam no dia 11 de setembro de 2001, expostos a altos níveis de químicos, nos escombros do World Trade Center6. A estes profissionais foi administrado suplementação por niaciana (vitamina B3), indicado que usassem sauna para suarem e fizessem exercícios físicos. Além disso, os participantes ingeriram óleos poli-insaturados para auxiliar na excreção de toxinas, e várias vitaminas, minerais e eletrólitos. Os profissionais estavam sofrendo com problemas de memórias devido à exposição a Bifenilas Policloradas. Após o programa, os bombeiros foram bem em diversos testes de memória, no entanto, foi utilizado um número baixíssimo de pessoas, foram apenas 14. Logo, como já comentado, não tem como inferir que algo realmente tem um efeito se o número amostral é tão baixo como este.
Nosso corpo desenvolveu muitos mecanismos de eliminação de toxinas. Fígado, rins, pele, sistema gastrointestinal e pulmões, todos têm um papel importante na excreção de substâncias indesejadas para nosso organismo7. Alimentos, no entanto, não se mostraram realmente efetivos no auxílio a desintoxicação. Há muitos estudos sobre regimes detox, porém, normalmente o número amostral é muito baixo, não podendo-se, assim, inferir que os resultados realmente expressam uma verdade. Alguns estudos podem ser conferidos no artigo de revisão já citado nesse texto5.
Dietas muito restritivas, com as que se baseiam principalmente em bebidas detox, causam muito estresse ao nosso organismo. Quando passamos fome, há a tendência de defesa do nosso corpo em relação à perda de peso, pois isso pode levar à baixa fecundidade e até morte8. Essa tendência se deve simplesmente ao processo evolutivo que nossa espécie já passou, pois, há muito tempo atrás, nossa espécie e ancestrais eram considerados caçadores-coletores, onde muitas vezes provavelmente tinham que passar por períodos com pouca disponibilidade de alimentos. Dessa forma, ao longo desse processo, nosso organismo foi adquirindo adaptações que fizeram com que se reservasse energia para situações em que esta fosse necessária. Gordura é uma fonte de reserva energética, assim, não é tão simples eliminá-la durante dietas restritivas, pois o organismo tende a armazená-la devido à falta de nutrientes necessários à manutenção do corpo. Então, se você pensa que irá emagrecer (aqui me refiro a eliminar gordura), estando em uma situação onde estará ingerindo pouquíssimas calorias através de sucos detox, desculpe, mas é um engano seu. Seu organismo não é bobo. Você pode até perder peso rapidamente, mas provavelmente estará “desinchando”, perdendo água.
Finalmente, respondendo à pergunta do título, é seguro beber suco verde? Penso que após este texto você sabe responder essa pergunta. Eu respondo que sim e que não. Tudo depende da dose. Se você inserir o suco verde em sua alimentação diária, COMPLEMENTANDO sua dieta, sim, ele é saudável devido a todos os nutrientes que há em cada ingrediente. Entretanto, se você usar uma grande quantidade por muito tempo, e se basear apenas nesse suco para eliminar peso, sinto muito, mas você está apenas dando sustos no seu organismo, prejudicando-o e correndo riscos de saúde.
A última mensagem que deixo é que, por favor, sejam céticos. Não se deixem levar pelo que as pessoas falam, mesmo se for uma dita autoridade. Não é porque uma nutricionista está falando que você pode beber suco verde à vontade, que você vai acreditar nisso cegamente. Questione tudo. Além disso, não compartilhe mentiras, tente verificar se o que você está prestes a falar para outra pessoa é realmente verídico. Eu mesma algumas vezes ainda acredito em algumas coisas sem pesquisar antes, mas acontece. É um processo diário. Aos poucos vamos criando o costume de questionar, buscando sempre descobrir o que de fato está acontecendo ao nosso redor.

Só o conhecimento te liberta, a ignorância te escraviza”


Autor desconhecido


Sugestões para leitura:
https://www.sciencebasedmedicine.org/the-one-thing-you-need-to-know-before-you-detox/
http://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2015/03/1601020-suco-detox-nao-serve-para-desintoxicar-nem-deve-substituir-comida.shtml

Referências utilizadas:
1-http://cienciaeliberdade.blogspot.com.br/2015/06/a-farsa-dos-sucos-detox-e-os-riscos-da.html
2-Ohashi K et al. (2012) A case of subclinical Cushing’s syndrome who developed pseudo-aldosteronism caused by green juice. Endocrine Abstracts 29: P111.
3-http://www.webmd.com/vitamins-supplements/ingredientmono-881licorice.aspx activeingredientid=881&activeingredientname=licorice
4-Bernardi M et al. (1994) Effects of prolonged ingestion of graded doses of licorice by healthy volunteers. Life Sciences 55: 863-872.
5-Klein AV & Kiat H (2014) Detox diets for toxin elimination and weight management: a critical review of the evidence. Journal of Human Nutrition and Dietetics 28: 675-686.
6-Kilburn KH et al (1989) Neurobehavioral dysfunction in firemen exposed to polycholorinated biphenyls (PCBs): possible improvement after detoxification. Archives of Environmental Health 44: 345–350.
7-Anzenbacher P & Anzenbacherova E (2001) Cytochromes P450 and metabolism of xenobiotics. Cellular and Molecular Life Sciences 58: 737–747.
8-Sainsbury A & Zhang L (2010) Role of the arcuate nucleus of the hypothalamus in regulation of body weight during energy deficit. Molecular and Cellular Endocrinology 316: 109–119.

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